quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ser criança combina com trabalho?

“Santos (Joaquim José Santos, ou, como é conhecido no Centro do Rio de Janeiro, onde está à frente de bacanas e descolados restaurantes no Polo Gastronômico da Praça XV) vai homenagear a avó, com quem aprendeu tudo de cozinha, e chamará a deli – que abre em um mês – de Vovó Laura.

– Aos 9 anos, eu já estava na beira do fogão – conta Santos, que diariamente percorre as quatro casas.” Jornal O Globo, revista Rio Show, 15/07/11


Ainda sob impacto do excelente episódio do programa A Liga, exibido ontem, sobre trabalho escravo, e refletindo durante a semana sobre o que é ou não exploração do trabalho infantil, minha reflexão vai um pouco além, mais para perto de nós, dentro de nossas casas.

Nos últimos dias, por conta de empreendimentos que estão em andamento, junto com meu marido-sócio-companheiro e por estarmos reorganizando nossa rotina, a fim de facilitar nosso trabalho doméstico (já que não contamos com empregada), os mais velhos, #aos8 e #aos10, são chamados e também manifestam vontade em ajudar (em muitas horas, confesso, é uma ajuda bem-vinda). #aos10 foi mais além, querendo aprender e dar uma força também nos negócios.

As tarefas normais deles não são poucas: escola, inglês, leituras, atividades extraclasse. Além do pleno direito que eles têm de ser simplesmente crianças. Será certo então deixá-los se envolver tão cedo assim nesses assuntos?

Fonte: MdeMulher

Na época de minha adolescência a Carteira Profissional podia ser tirada aos 14 anos (hoje somente é permitido aos 16). Lembro que com 12, 13, eu já estava ansiosa para exercer alguma atividade, seja em loja, lanchonete, o que aparecesse. Acabei só começando aos 16, pois minha mãe não permitiu antes disso. Conheço pessoas que têm negócios onde os filhos participam, mesmo que timidamente, desde cedo, mesmo que seja para arrumar uns papéis na gaveta ou simplesmente ficar olhando. Há crianças que adoram ir para a cozinha ajudar, que arrumam seu quarto, que trocam uma fralda do irmãozinho mais novo em um momento de aperto. Pergunto novamente: isso pode ser considerado exploração?

Essa mesma sociedade que critica quando damos alguma tarefa a mais para nossas crianças, permite que o trabalho escravo seja amplamente utilizado na construção, no agronegócio, em confecções, com tudo devidamente consumido depois sem culpa (e muitas vezes custando caro). Acha normal (ou finge que não vê) crianças pedindo dinheiro no sinal, sendo exploradas e até alugadas para exploração pelos adultos que deveriam por elas zelar. Ou vê com bons olhos meninas desfilando com visual de adultas, em clima de competição feroz ou ficando mais de 12 horas num casting para um anúncio de tv.

Situações degradantes de trabalho e exploração, obviamente, devem ser duramente denunciadas e combatidas. Existe, inclusive, uma PEC tramitando pelo Congresso a respeito, cuja proposta prevê o confisco das propriedades rurais onde forem constatadas situações assim. Existe pressão e temos que fazer mais ainda, e com muito barulho, para que seja aprovada pelo Governo. Iniciativas semelhantes existem para evitar a exploração de mão de obra infantil.

O que questiono é que se hoje em dia alguém contar que deixou o filho de 9 anos pilotar um fogão (sob a supervisão e proteção dos responsáveis), cortar uma salada ou mesmo varrer seu quarto, é capaz de chamarem o Conselho Tutelar e a pessoa ser processada por incentivar o trabalho infantil (e escravo). Vivemos uma época de histeria travestida de boas intenções politicamente corretas (das quais o inferno está cheio), visando teoricamente o bem estar de nosssas crianças, quando as ações que realmente importam não ganham tanta projeção e importância.

Na segunda semana de julho, circulou pelas redes sociais o excelente texto da jornalista Elaine Brum para sua coluna na Época falando da blindagem imposta pelos pais aos filhos em relação a frustrações, tendo eles a obrigação de prover felicidade a seus rebentos. Quando eles descobrem que o buraco é mais embaixo, fazem beicinho. Não estão preparadas para a vida e não sabem o que é colaboração, coisa cada vez mais valorizada e necessária.

2 comentários:

Luciana Onofre disse...

Comecei cedo a laborar, na mesma idade que tu, por necessidade de fato, necessidade de manter mãe e irmã... Então penso que qdo começamos assim com todo esse peso nas costas não se saboreia o trabalho, e mto menos os ganhos.

Mas quero que ambos os meus, trabalhem tmb nessa idade, afinal o pai deles tmb começou com 16, [num outro contexto bem zen, mas aos 16].

Sem saber de onde cai o dindin a criança/adolescente jamais dará valor à sua mesadinha...

Creio que pais empresários q possam colocar a cria pelo menos 2x na semana num período do dia como aprendizes farão algo mto maior do que se supõe pelos filhos.

=)

Um espaço pra chamar de meu disse...

Verdade,Cris...Eu #aos9 ficava em casa com meu irmão de 5 e outro de 9 meses, uma pessoa ia lá ficar comigo só pra fazer a comida, e ainda tinha meu pai que teve derrame...
Agora minha filha qdo peço a ela pra lavar uma louça quase infarta, clama pelo ECA, liga pro CT, pra Namaria Braga, Cidade Alerta, Silvio Santos...#sofre...mas não dou moleza...
É muita hipocrisia na verdade...
Gostei do post...bjs!!!

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